terça-feira, 10 de junho de 2014

A Corda


Sento-me à espera que o tempo passe.
Com o tempo a meu lado, à espera que eu passe por ele.
E ficamos um ao lado do outro, como quem espera por si.
Enquanto ficamos nada é eterno, e tudo dura para sempre.
Não há horas que passem, nem receio chegar atrasado.
Os ponteiros estão sobre o meu ombro com preguiça de rodar.
Talvez fiquem tontos. Um quarto de hora. Três horas e meia. Seis horas e três quartos. Dias.
E os ponteiros não se agoniam?
Nesses ciclos viciantes, estonteantes, repetidos
e sofridos e aproveitados e sôfregos?
Pudessem eles rodar em sentido contrário para contrariar o sentido habitual.
O sentido contrário aos ponteiros do relógio.
O sentido contrário a si mesmos.
Pudesse eu andar em sentido contrário a mim mesmo.
E em sentido contrário ao do tempo.
E correr em sentido contrário ao do trânsito, e mais rápido que a luz.
Essencialmente em sentido contrário ao do tempo.
Pudessem os ponteiros acertar-me e enterrar-me no cimento que piso.
Prender-me ao chão que me pisa pelos tornozelos sem ter como ir.
Sem ter como ir atrás do tempo.
Sem o tempo a empurrar-me para onde quer que ele vá.

Quem é o corajoso filho da puta que dá corda ao relógio do mundo?

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Amor é Tudo Menos Cego

O amor é tudo menos cego.
Vejo-te e amo-te.
Vejo-me obrigado a ver-te e a amar-te.
Vejo-me obrigado a ver cada centímetro de ti,
quer por dentro, quer por fora.
O amor com que te amo obriga-me a ver-te.
Só te amo quando te vejo.
E não há segundo na vida em que eu não te veja.

Espio-me

O chão não é silencioso
e range quando eu, inerte, me espio.
As tábuas que jazem a meus pés
gemem despertando-me para a minha presença.
Mais uma vez não me conheço.
(O que há para além de tentar?
O sucesso? A morte?
E não é a morte o sucesso de viver?)
Tanto me espio como me perco de vista.
Vejam-me. Olhem para mim!
Vá, olhem e digam-me o que vêem.
O que é que eu sou, que não sei ver?

Soubesse eu conhecer-me em versos.

domingo, 8 de junho de 2014

Faz-me-te

Mente-me. Finge.
Não me digas quem és e rasga quem sou.
Faz-me sentir verdadeiramente
para além do vazio que trago.
E de um trago bebe-me a alma
e embebeda-te de mim.
Sê quem quiseres e não me agrades.
Prende-me às grades de ti e eu choro.
Um choro soluçado de um eu desalmado.
Faz de mim o teu orgasmo
e responde-me com rude sarcasmo.
Faz de mim um mero caco
e desfaz-me como o teu tabaco.
Vicia-me em ti.


Sinto que existo. Num silencioso grito,
traz-me uma fonte de prazer infinito.

Pena Perpétua

No milagre - ou acaso - que somos,
pouco fazemos para ser realmente.

Qualquer carreira de sucesso,
ou dinheiro ganho em excesso,
na hora da morte, de nada valeram.
Nem valerão. Fechados num caixão;
Naquela caixa, apertada e baixa, presos no eterno.
Sonhando com nada, esquecendo o que nos foi terno.
Duvidando da existência de um céu ou de um inferno.

No entanto nasci.
Nasci e estou condenado à existência,
estando preso à liberdade
do livre-arbítrio do Homem.
Cercado pela amizade, ódio e paciência,
emoções que me consomem.

Decidi durar nesta biografia de mim.
Mesmo que a morte seja certa
e a finitude de tudo o que sou seja deserta.


Nasci. Durarei.

Está um bêbedo no meio da estrada.

Está um bêbedo no meio da estrada.
Cheira a colónia barata e vinho de mesa.
Tem a vida embriagada de si próprio
e bebe lado a lado com a tristeza
de ser bêbedo e de estar no meio da estrada.
Bebeu para esquecer e esqueceu-se de beber menos.
Mais um anónimo com sangue no álcool…
Pudesse ele conhecer a sóbria distância entre
esquecer e relembrar a sobriedade.
Caiu de encontro ao alcatrão, que lhe escutou os segredos
escondidos pela racionalidade que o álcool devora.
A estrada respondeu-lhe com o silêncio que ele merecia
e ofereceu-se para ser cama.
Está bêbedo.


Só tenho pena de estar no meio da estrada.

Alheios

São das pessoas que passam por mim na rua,
os meus pensamentos.
Cada uma mexe as mãos de maneira diferente.
Todos olham em frente perdidos em si.
Uns andam devagar, à espera de tudo.
Outros andam tão rápido como se tudo estivesse à espera deles.
Uns beijam-se.
- Amem-se!
Eu penso por todos eles, e observo cada um.
Passam alheios ao mundo.
Pudesse eu ser-lhes alheio.

Aquelas riem-se.
Aqueles despedem-se.
Dos engravatados aos amarrotados,
todos perdidos em si.
Ah, e dizem palavrões!
Merda para eles por serem alheios a tudo.
Pudesse eu ignorar.


- Amem-se!