Só quando olho sozinho vejo direito. Não há outra maneira de olhar senão sozinho. Sem que ninguém, senão apenas eu, me interrompa as teorias acerca do tudo o que há, de tudo o que devia haver, da maneira como tudo o que há surgiu e de como estará para surgir o que nada há. Só quando só, me digno a absorver cada reflexo do céu amanhecente em cada ondulação do rio.
Haverá outra maneira de ver senão sozinho?
Os diálogos silenciosos de mim para comigo não deixam que nada me seja alheio. E tudo é barulho. Mesmo o silêncio urbano da madrugada lisboeta. E as ruas desertas da Lisboa dos poetas. Só quando só, me são constantes. Por ninguém me passar despercebido na rua, no caminho para cá ou na fuga para lá, cada um faz parte de mim sem que eu faça parte de nenhum.
Haverá outra maneira de falar senão sozinho?
É sozinho que me duvido. E me divido em dúvidas. E duvido dos outros e ponho tudo em causa. Pondero duvidar, e duvido mesmo. Há que pôr tudo em causa se quero saber a causa de tudo. Só quando só, me digno a crer. É na dúvida que sempre esteve a resposta. Não tenho dúvidas disso. A sós, eu e a conclusão concluída com ponto de interrogação.
Haverá outra maneira de ser senão a sós?
segunda-feira, 30 de junho de 2014
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Fogo Posto
Deixa o fogo acontecer.
Deixa o espelho dobrar quaisquer cinzas que resultem.
Chama os poetas a recolher os restos das chamas.
Os carvões que não arderam,
os que arderam demais,
e os que deixaram de arder
por lhes faltar o oxigénio de um beijo apertado.
Deixa o espelho dobrar quaisquer cinzas que resultem.
Chama os poetas a recolher os restos das chamas.
Os carvões que não arderam,
os que arderam demais,
e os que deixaram de arder
por lhes faltar o oxigénio de um beijo apertado.
Chama
lá os poetas a recolher o que sobrou do fogo.
Fogo posto.
Mal disposto.
De bom gosto.
Fogo posto.
Mal disposto.
De bom gosto.
Que a tinta com que traduzem
os restos em palavras bonitas seja fogo também.
os restos em palavras bonitas seja fogo também.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Fúteis
Ó anónimos fúteis bordados a ouro,
que desfilam no mundo desigual de nós.
Ó calhaus preciosos, andantes e vazios
que pisam quem acham que nada é.
Talvez seja melhor a morte, que a fama
e as algibeiras cheias do que move o mundo.
Ó anónimos fúteis que fazem que tudo
se vá movendo à mercê do combustível dourado.
Deixem o amor mover o mundo, ao invés do ouro
e das tiras de papel desbotado e estampado.
Talvez seja melhor o amor, que a fama.
que desfilam no mundo desigual de nós.
Ó calhaus preciosos, andantes e vazios
que pisam quem acham que nada é.
Talvez seja melhor a morte, que a fama
e as algibeiras cheias do que move o mundo.
Ó anónimos fúteis que fazem que tudo
se vá movendo à mercê do combustível dourado.
Deixem o amor mover o mundo, ao invés do ouro
e das tiras de papel desbotado e estampado.
Talvez seja melhor o amor, que a fama.
Ó breu, que cega os ricos, casa com a manhã.
Traz uma penumbra saudável.
Que o amor conduza os anónimos, e os fúteis.
E os anónimos fúteis e os fúteis conhecidos.
Talvez seja melhor a morte, que o amor.
Traz uma penumbra saudável.
Que o amor conduza os anónimos, e os fúteis.
E os anónimos fúteis e os fúteis conhecidos.
Talvez seja melhor a morte, que o amor.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Metáfora
Vês a
maneira como a luz entra nas persianas,
e cospe na parede as sombras das vidas urbanas?
É metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que alguém deixa as persianas meio abertas,
senão para deixar o amor entrar?
e cospe na parede as sombras das vidas urbanas?
É metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que alguém deixa as persianas meio abertas,
senão para deixar o amor entrar?
Vês a
maneira como não consegues agarrar o fumo,
porque é leve e livre de seguir sempre o seu rumo?
É metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que o amor se deixa prender,
senão pelas mãos de quem não escreve?
É metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que o amor se deixa prender,
senão pelas mãos de quem não escreve?
Vês a
maneira como a lua sobe às cavalitas do céu,
tão longe e inatingível e impossível como tudo o que é meu?
É-me metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que o amor se criou,
senão à semelhança dos astros?
tão longe e inatingível e impossível como tudo o que é meu?
É-me metaforicamente o amor.
E literalmente o amor.
Ou achas que o amor se criou,
senão à semelhança dos astros?
Vês a
maneira como não existes?
Sê-me, pelo menos, metaforicamente.
Sê-me, pelo menos, metaforicamente.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Espaço
SSS
Copos.
Vamos vivendo meio cheios até nos suportar.
As lágrimas choram-nos
quando o recipiente que sempre fomos transborda.
Cada vez que deixamos de caber em nós.
Ficando de companhia com todo o meio vazio que nos enche.
domingo, 15 de junho de 2014
Declararam-se
Olharam-se, e para além do que viam
estavam eles próprios, de olhos postos um no outro.
Beijaram-se, e para além do que derretia
estavam eles próprios, de olhos postos um no outro.
Beijaram-se, e para além do que derretia
estavam eles próprios, de almas postas no beijo um do outro.
“Quero-te numa infusão.
Beber-te. Apaixonar-te.
Não fosse chá sinónimo de Inverno.” – declararam-se.
“Quero-te numa infusão.
Beber-te. Apaixonar-te.
Não fosse chá sinónimo de Inverno.” – declararam-se.
O manicómio são as ruas.
A loucura está escrita nas paredes e nos lábios.
E os loucos são os apaixonados.
E os loucos são os apaixonados.
sábado, 14 de junho de 2014
Ilocutório
Rasgou a tela e inventou a arte;
-A tinta.
-A tinta.
Correu pelo pergaminho e compôs o esboço;
-O carvão.
-O carvão.
Moldou a vida, qual peça de gesso pálido;
-O medo.
-O medo.
Cerrou a corrente de ar com os dentes;
-A força.
-A força.
Fugiu do mundo, para melhor, talvez;
-O amor.
-O amor.
Bateu à porta com as unhas lascadas e pariu o silêncio;
-O nada.
-O nada.
Viveu capaz de olhar melhor para a noite, a noite toda,
até descobrir o que ela tem de tão belo que o dia não vê;
-Tu.
até descobrir o que ela tem de tão belo que o dia não vê;
-Tu.
Derreteu tudo em versos;
-Quem?
-Quem?
quarta-feira, 11 de junho de 2014
De que cor é a morte?
De que cor é a morte?
Transparente, cor das lágrimas gordas
que me doem ao desvanecerem-se no rosto?
Branca, desbotada, cor do meu bocejo
de encontro ao ar frio onde me encosto?
Transparente, cor das lágrimas gordas
que me doem ao desvanecerem-se no rosto?
Branca, desbotada, cor do meu bocejo
de encontro ao ar frio onde me encosto?
Ou preta? Cor de mim por dentro?
A existência esqueceu-se de que era enigma.
A morte lembrou-se de que era a resposta.
“Cala-te!” – grito para o despertador sonante
que me acorda para a morte.
“Só mais cinco minutos…” – sussurro,
enroscando-me nos poucos cobertores
que ainda me aquecem a vida.
enroscando-me nos poucos cobertores
que ainda me aquecem a vida.
terça-feira, 10 de junho de 2014
A Corda
Sento-me à espera que o tempo passe.
Com o tempo a meu lado, à espera que eu passe por ele.
E ficamos um ao lado do outro, como quem espera por si.
Enquanto ficamos nada é eterno, e tudo dura para sempre.
Não há horas que passem, nem receio chegar atrasado.
Os ponteiros estão sobre o meu ombro com preguiça de rodar.
Talvez fiquem tontos. Um quarto de hora. Três horas e meia. Seis horas e três quartos. Dias.
E os ponteiros não se agoniam?
Nesses ciclos viciantes, estonteantes, repetidos
e sofridos e aproveitados e sôfregos?
Pudessem eles rodar em sentido contrário para contrariar o sentido habitual.
O sentido contrário aos ponteiros do relógio.
O sentido contrário a si mesmos.
Pudesse eu andar em sentido contrário a mim mesmo.
E em sentido contrário ao do tempo.
E correr em sentido contrário ao do trânsito, e mais rápido que a luz.
Essencialmente em sentido contrário ao do tempo.
Pudessem os ponteiros acertar-me e enterrar-me no cimento que piso.
Prender-me ao chão que me pisa pelos tornozelos sem ter como ir.
Sem ter como ir atrás do tempo.
Sem o tempo a empurrar-me para onde quer que ele vá.
Quem é o corajoso filho da puta que dá corda ao relógio do mundo?
Com o tempo a meu lado, à espera que eu passe por ele.
E ficamos um ao lado do outro, como quem espera por si.
Enquanto ficamos nada é eterno, e tudo dura para sempre.
Não há horas que passem, nem receio chegar atrasado.
Os ponteiros estão sobre o meu ombro com preguiça de rodar.
Talvez fiquem tontos. Um quarto de hora. Três horas e meia. Seis horas e três quartos. Dias.
E os ponteiros não se agoniam?
Nesses ciclos viciantes, estonteantes, repetidos
e sofridos e aproveitados e sôfregos?
Pudessem eles rodar em sentido contrário para contrariar o sentido habitual.
O sentido contrário aos ponteiros do relógio.
O sentido contrário a si mesmos.
Pudesse eu andar em sentido contrário a mim mesmo.
E em sentido contrário ao do tempo.
E correr em sentido contrário ao do trânsito, e mais rápido que a luz.
Essencialmente em sentido contrário ao do tempo.
Pudessem os ponteiros acertar-me e enterrar-me no cimento que piso.
Prender-me ao chão que me pisa pelos tornozelos sem ter como ir.
Sem ter como ir atrás do tempo.
Sem o tempo a empurrar-me para onde quer que ele vá.
Quem é o corajoso filho da puta que dá corda ao relógio do mundo?
segunda-feira, 9 de junho de 2014
O Amor é Tudo Menos Cego
O amor é tudo menos cego.
Vejo-te e amo-te.
Vejo-me obrigado a ver-te e a amar-te.
Vejo-me obrigado a ver cada centímetro de ti,
quer por dentro, quer por fora.
O amor com que te amo obriga-me a ver-te.
Só te amo quando te vejo.
E não há segundo na vida em que eu não te veja.
Vejo-te e amo-te.
Vejo-me obrigado a ver-te e a amar-te.
Vejo-me obrigado a ver cada centímetro de ti,
quer por dentro, quer por fora.
O amor com que te amo obriga-me a ver-te.
Só te amo quando te vejo.
E não há segundo na vida em que eu não te veja.
Espio-me
O chão não é silencioso
e range quando eu, inerte, me espio.
As tábuas que jazem a meus pés
gemem despertando-me para a minha presença.
Mais uma vez não me conheço.
e range quando eu, inerte, me espio.
As tábuas que jazem a meus pés
gemem despertando-me para a minha presença.
Mais uma vez não me conheço.
(O que há para além de tentar?
O sucesso? A morte?
E não é a morte o sucesso de viver?)
O sucesso? A morte?
E não é a morte o sucesso de viver?)
Tanto me espio como me perco de vista.
Vejam-me. Olhem para mim!
Vá, olhem e digam-me o que vêem.
O que é que eu sou, que não sei ver?
Vejam-me. Olhem para mim!
Vá, olhem e digam-me o que vêem.
O que é que eu sou, que não sei ver?
Soubesse eu conhecer-me em versos.
domingo, 8 de junho de 2014
Faz-me-te
Mente-me. Finge.
Não me digas quem és e rasga quem sou.
Faz-me sentir verdadeiramente
para além do vazio que trago.
E de um trago bebe-me a alma
e embebeda-te de mim.
Sê quem quiseres e não me agrades.
Prende-me às grades de ti e eu choro.
Um choro soluçado de um eu desalmado.
Faz-me sentir verdadeiramente
para além do vazio que trago.
E de um trago bebe-me a alma
e embebeda-te de mim.
Sê quem quiseres e não me agrades.
Prende-me às grades de ti e eu choro.
Um choro soluçado de um eu desalmado.
Faz de mim o teu orgasmo
e responde-me com rude sarcasmo.
Faz de mim um mero caco
e desfaz-me como o teu tabaco.
Vicia-me em ti.
Faz de mim um mero caco
e desfaz-me como o teu tabaco.
Vicia-me em ti.
Sinto que existo. Num silencioso grito,
traz-me uma fonte de prazer infinito.
traz-me uma fonte de prazer infinito.
Pena Perpétua
No milagre - ou
acaso - que somos,
pouco fazemos para ser realmente.
pouco fazemos para ser realmente.
Qualquer carreira de
sucesso,
ou dinheiro ganho em excesso,
na hora da morte, de nada valeram.
Nem valerão. Fechados num caixão;
Naquela caixa, apertada e baixa, presos no eterno.
Sonhando com nada, esquecendo o que nos foi terno.
Duvidando da existência de um céu ou de um inferno.
ou dinheiro ganho em excesso,
na hora da morte, de nada valeram.
Nem valerão. Fechados num caixão;
Naquela caixa, apertada e baixa, presos no eterno.
Sonhando com nada, esquecendo o que nos foi terno.
Duvidando da existência de um céu ou de um inferno.
No entanto nasci.
Nasci e estou condenado à existência,
estando preso à liberdade
do livre-arbítrio do Homem.
Cercado pela amizade, ódio e paciência,
emoções que me consomem.
Nasci e estou condenado à existência,
estando preso à liberdade
do livre-arbítrio do Homem.
Cercado pela amizade, ódio e paciência,
emoções que me consomem.
Decidi durar nesta
biografia de mim.
Mesmo que a morte seja certa
e a finitude de tudo o que sou seja deserta.
Mesmo que a morte seja certa
e a finitude de tudo o que sou seja deserta.
Nasci. Durarei.
Está um bêbedo no meio da estrada.
Está um bêbedo no
meio da estrada.
Cheira a colónia barata e vinho de mesa.
Tem a vida embriagada de si próprio
e bebe lado a lado com a tristeza
de ser bêbedo e de estar no meio da estrada.
Bebeu para esquecer e esqueceu-se de beber menos.
Mais um anónimo com sangue no álcool…
Pudesse ele conhecer a sóbria distância entre
esquecer e relembrar a sobriedade.
Caiu de encontro ao alcatrão, que lhe escutou os segredos
escondidos pela racionalidade que o álcool devora.
A estrada respondeu-lhe com o silêncio que ele merecia
e ofereceu-se para ser cama.
Está bêbedo.
Cheira a colónia barata e vinho de mesa.
Tem a vida embriagada de si próprio
e bebe lado a lado com a tristeza
de ser bêbedo e de estar no meio da estrada.
Bebeu para esquecer e esqueceu-se de beber menos.
Mais um anónimo com sangue no álcool…
Pudesse ele conhecer a sóbria distância entre
esquecer e relembrar a sobriedade.
Caiu de encontro ao alcatrão, que lhe escutou os segredos
escondidos pela racionalidade que o álcool devora.
A estrada respondeu-lhe com o silêncio que ele merecia
e ofereceu-se para ser cama.
Está bêbedo.
Só tenho pena de
estar no meio da estrada.
Alheios
São
das pessoas que passam por mim na rua,
os meus pensamentos.
Cada uma mexe as mãos de maneira diferente.
Todos olham em frente perdidos em si.
Uns andam devagar, à espera de tudo.
Outros andam tão rápido como se tudo estivesse à espera deles.
Uns beijam-se.
- Amem-se!
Eu penso por todos eles, e observo cada um.
Passam alheios ao mundo.
Pudesse eu ser-lhes alheio.
os meus pensamentos.
Cada uma mexe as mãos de maneira diferente.
Todos olham em frente perdidos em si.
Uns andam devagar, à espera de tudo.
Outros andam tão rápido como se tudo estivesse à espera deles.
Uns beijam-se.
- Amem-se!
Eu penso por todos eles, e observo cada um.
Passam alheios ao mundo.
Pudesse eu ser-lhes alheio.
Aquelas
riem-se.
Aqueles despedem-se.
Dos engravatados aos amarrotados,
todos perdidos em si.
Aqueles despedem-se.
Dos engravatados aos amarrotados,
todos perdidos em si.
Ah, e
dizem palavrões!
Merda para eles por serem alheios a tudo.
Pudesse eu ignorar.
Merda para eles por serem alheios a tudo.
Pudesse eu ignorar.
- Amem-se!
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