Invejo,
com certeza, os que passam alheios
ao passar do tempo e à efemeridade de tudo.
Invejo aqueles que seguem o caminho somente do presente,
sem terem passado pelo passado, e sem rumarem ao futuro.
Porque lhes dói os pés se passarem.
Assim, com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
tudo passa e acabamos a beber a vida fria.
Invejo os
que nem sabem do tempo,
nem o de ontem nem o de para sempre.
Os que fogem à aflição causada pela metafísica.
O meu erro é querer a essência de tudo, menos de mim.
Tomara que
fosse tudo concreto.
Nascer. Ir andando. Morrer.
Nasce.
Morre.
E, enquanto se vai andando, vai nascendo e morrendo
e procurando. E o pior é sentir.
Com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
sinto tudo tão rápido e efémero. Efémero também eu.
Tomara que fizesse frio toda a vida, e que nevasse somente por nevar.
Para lá do ciclo de formação das nuvens.
Nasce e
vai ardendo, qual fósforo curto.
Queria eu saber a metafísica do fogo.
Porque nem sei se é táctil quando não lhe toco.
Tenho em mim a certeza de que o fogo seria agradável ao toque,
se arrefecesse com a mesma velocidade que o chá no Inverno.
Pudesse eu
ser alheio ao fogo, e ao andamento ritmado do universo.