sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cai Fria

Quando cai, cai fria.
Fria, arranhada, desonesta.
Segue-se a festa,
onde reina o breu.
Das roupas, ao caixão,
até às lágrimas de quem,
por sorte, ou não,
não morreu.

As almas, também negras,
acompanham o funeral.
Assim, a morte,
em jeito de saudade precoce,
traz a questão:
O que é a vida, afinal?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Não Escrevas aos Mortos

Escreve aos que estão para morrer, que as palavras ainda vivem.
E só são palpáveis em vida.
Escreve aos que estão para viver depois de já terem vivido,
que só as palavras atrasam o passo do tempo.
E as folhas não cortam se forem em branco.
Escreve para os que nascem depois de nascer, que as palavras trazem mais.
E as letras só crescem quando lidas.

Não escrevas aos mortos, que as palavras também morreram.
E só são palpáveis em vida.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cru

Somos todos poesia. 
E a melhor paisagem para se escrever são as pessoas. 
Escritas direitas por linhas direitas. 
Máquina e osso. E sangue para fazer andar. 
Movidas pelo ar que suspiram.


É na euforia citadina que a carne se torna verso.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Efémero Eu

Invejo, com certeza, os que passam alheios
ao passar do tempo e à efemeridade de tudo.
Invejo aqueles que seguem o caminho somente do presente,
sem terem passado pelo passado, e sem rumarem ao futuro.
Porque lhes dói os pés se passarem.
Assim, com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
tudo passa e acabamos a beber a vida fria.

Invejo os que nem sabem do tempo,
nem o de ontem nem o de para sempre.
Os que fogem à aflição causada pela metafísica.
O meu erro é querer a essência de tudo, menos de mim.
Tomara que fosse tudo concreto.
Nascer. Ir andando. Morrer.

Nasce. Morre.
E, enquanto se vai andando, vai nascendo e morrendo
e procurando. E o pior é sentir.
Com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
sinto tudo tão rápido e efémero. Efémero também eu.
Tomara que fizesse frio toda a vida, e que nevasse somente por nevar.
Para lá do ciclo de formação das nuvens.

Nasce e vai ardendo, qual fósforo curto.
Queria eu saber a metafísica do fogo.
Porque nem sei se é táctil quando não lhe toco.
Tenho em mim a certeza de que o fogo seria agradável ao toque,
se arrefecesse com a mesma velocidade que o chá no Inverno.

Pudesse eu ser alheio ao fogo, e ao andamento ritmado do universo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Gravata Torta

Sei quem lá vem, sem bater à porta.
Visto-me bem. Gravata torta.
Sei quem lá vem, com pressa arrastada.
Visto-me bem. Gravata apertada.
Sem quem lá vem, sem subir a escada.
Visto-me bem. Gravata sufocada.
Sei quem lá vem, a morte está à porta.
Visto-me bem. Gravata torta.

Sem quem entrou, sem pedir licença.
Visto-me bem. Gravata de sentença.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vem cá, antes que chova

Vem cá, antes que chova
Antes que escorregues em alguém
e te esfoles por dentro sem mim.

Vem cá, antes que chova
Antes que te prendam no tráfego humano
e sufoques no bafo de quem não sou.

E antes que chova passa por cá,
Antes que encharques a alma com a alma de outrem.
Antes que te molhes com alguém que não eu.

(E quando vires o sol foge.
Deixaste de chorar.
E a poesia não nasce senão de tristeza.)

domingo, 9 de novembro de 2014

Depende

Já não vivemos sem luz em casa. Sem luz nas mãos.
Que será de nós quando o sol fundir?

Já não vivemos sem água em casa. Sem água na boca.
Que será de nós quando os beijos secarem?

Já não vivemos sem panos em casa. Sem panos na pele.
Que será de nós quando a vida nos despir?

Já não vivemos sem ouro em casa. Sem ouro nos bolsos.
Que será de nós quando as calças nos roubarem?

Já não vivemos sem ninguém em casa.
Nem nas mãos, nem nos bolsos, nem na boca.
Nem na pele.
Que faremos nós de nós, quando um de nós partir?

sábado, 18 de outubro de 2014

O que é que sobra da alma de quem não ama?

O que é que sobra da alma de quem não ama?
Quais os restos de quem não tem o sentimento anfíbio
que rasteja em si e nada no sangue de alguém?
Sobra a alma toda. 
É-se pela metade por faltar a outra. A outra alma.
Sobra a alma toda. E é tão pouco.

domingo, 21 de setembro de 2014

Tu Que Ardes Curas

Não te abraçaria se os teus braços não fossem arame farpado
de pontas ferrugentas embebidas nalgum remédio que tu lá sabes.
E que cura de modo intravenoso por me abraçares tão fundo.

Não te abraçaria se a tua pele não fosse gelo que queima
e que teima em me arder, untado com alguma pomada que tu lá sabes.
E que cura de forma cutânea por me abraçares tão junto.

Não te abraçaria se não me doesse tocar-te. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ambíguo

Quero multidão. 
Sufocar em calor humano
Pisadelas de euforia citadina.

Quero solidão.
Me. E só.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

domingo, 14 de setembro de 2014

Lisboa Também Não Dorme

Lisboa também não dorme.
(É insónia quando cheira a madrugada bêbeda.
É o silêncio da solidão apetecível escrito nas ruas desertas
da noite quase diurna.
É a arte no chão de calçada descalça que quem pisa ama.
A voz do fado bairrista e das guitarras tangentes.)
Mas sonha!

sábado, 30 de agosto de 2014

Fim

Chegou-se sorrateiramente para mais longe.
Cada vez mais próximo de quem não estava
e mais perto da solidão.
Acompanhado apenas de quem estava mais farto:
si mesmo.
Quis tirar uns dias – eternos – para viajar.
Turismo rural ou citadino ao jardim
onde as plantas são pedra regadas a lágrimas quentes.

Sorrateiro embebedou-se.
Fugiu para onde tinha a certeza que ficaria antes de ir.
Deambulou pelas ruas estreitas
onde a única iluminação que restava era um candeeiro sujo.
A luz reflectia-se na garrafa vazia de vinho barato
que lhe pendia da mão trémula.
Que olhos opacos que tinha.
Aquele olhar já não era janela para alma alguma.

Sorrateiro parou.
Tirou a gravata desapertada
que ainda lhe sufocava a goela, reprimindo o grito.

Sorrateiro gritou.
O grito arranhou-o e sorrateiro chorou.
Percorreu o que faltava da cidade.
E por dentro o que lhe faltava da vida.
Nada. Penumbra vazia era o que via.
Viver já não lhe era sinónimo de nada.

Que sorrateira morte.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ensurdece-me

Tempestuoso ensurdecedor ruído.
Traz-mo.
Berros que calem as perguntas dos outros
e os eternos diálogos silenciosos comigo mesmo.
Quero barulho que cale o barulho.
Quero gritos que silenciem os sussurros
e abafem as conversas em tom monótono
e convencional e civicamente suportáveis.

Porque não grito eu?
Porque não grita quem passa por mim na rotina?
É rara a garganta que me faça deixar
de ouvir de tão exagerado berro.
É cara a dor de querer os tímpanos surdos
de tanto estrépito constante.
Traz-me a cidade e o trânsito e o barulho das luzes
e o barulho dos pensamentos dos anónimos
e o barulho da arte de viver de cada um.

Ou só o barulho da arte.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sê de Companhia

Não queiras ser a sós.
Não queiras ser só, a sós.
Só querendo ser com alguém, serás.

Houve geada, sim. Gelada.
E chovem-te as pestanas em água salgada.
A bala que te dispararam era algodão,
comparada com o chumbo que choras.

Não queiras emigrar de ti.
Viaja para mais perto.
E não te chores.

Choras para te lavar de quem?
Alguém que te faça sentir
e sinta reciprocamente?
    -Tão longe.

Viaja para mais perto.
Berra nas letras.
Sê a descoberto e sê em versos.