quinta-feira, 17 de julho de 2014

Elixir

Pudesse a água embebedar.
Afogar esta dor de cabeça.
Diluir esta dor de vida.
Hidratar os rasgos mínimos de inspiração
e dar forma à poesia que teima em nascer em versos soltos.
Abrir em mim afluentes sem nascente própria para além da arte.
Arrastar-me na corrente gelada e ordenar-me a ir
sem que eu tenha de decidir por mim a que foz quero chegar.
Com que voz quero falar.
Transpirar para fora de mim, qual lágrima de quilates sujos.
Erodir-me e reinventar-me a partir dos meus sedimentos,
tal qual areia colada a cuspo.

Pudesse a água curar depois toda a ressaca de existir.

sábado, 12 de julho de 2014

Auto

Quem és senão tu dependente de ti mesmo?
Quem és senão tu à deriva da vida que levas?

Estranha-te. Foge-te.
Quem és senão as tentativas de te fugires?

Vê-te.
Quem és senão o reflexo de ti no espelho dessas fugas?

Ouve-te.
Quem és senão os ecos dos teus próprios silêncios?

Senta-te ao colo de ti.
Quem és senão o teu conforto?

Sonha-te.
Quem és senão o impossível que te desejas?

Chora-te.
Quem és senão a hidratação das tuas maçãs do rosto?

Sê-te.
Quem és?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Dois

A chuva que me molha não me lava.
O tempo que passa só me envelhece.
Enquanto o meu sangue arrefece.
Enquanto vejo o mundo
com olhar de quem não esquece.
Ele passa.
Estamos parados na gare.
Vemo-lo passar.

Ah, máquina de vapor que por ninguém espera.
São dois dias, dizem...
Mas o comboio que leva os séculos e os meses,
em segundos, esconde o que desejámos tantas vezes

Mas há rotinas e empregos e correrias.
Pelas ruas estreitas e pelas avenidas de gritarias.
Fatos de gravata e fatos de macaco,
Homens motorizados e refugiados no tabaco.

São dois dias, a vida.
Dois dias que tentamos esticar.

sábado, 5 de julho de 2014

Orgânico

Pudessem as rugas ser expressão.
E não vincos rasgados na pele engelhada
dos anos já bombeados por um coração
entupido de mágoas eternas e internas.
Coágulos ferrados às paredes das artérias que somos por dentro.
Vias rápidas alternativas para as células cansadas.

Tomara que houvesse um comprimido
engolido com água bem fresca,
que entrasse em nós e fosse à pesca
dos males que nos entopem o sangue.

És a nódoa mais negra e o arranhão que pior sarou.
És calo em mão de poeta, que escreveu, leu e apagou.