sábado, 25 de abril de 2015

~

Que as tuas mãos falem tanto quanto a tua língua.
Que com gestos me convenças do que não sei. Do que não sinto.
Que com gestos me mandes embora, deixando-me ficar para trás.
Com os mesmos gestos com que me confortas depois do frio.

Que os teus gritos falem tão alto quanto os teus olhos.
Que com berros me olhes de perto.
Que com berros me vejas ao longe e fiques, tu, para trás

Entretanto, entre tantos, tu.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cai Fria

Quando cai, cai fria.
Fria, arranhada, desonesta.
Segue-se a festa,
onde reina o breu.
Das roupas, ao caixão,
até às lágrimas de quem,
por sorte, ou não,
não morreu.

As almas, também negras,
acompanham o funeral.
Assim, a morte,
em jeito de saudade precoce,
traz a questão:
O que é a vida, afinal?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Não Escrevas aos Mortos

Escreve aos que estão para morrer, que as palavras ainda vivem.
E só são palpáveis em vida.
Escreve aos que estão para viver depois de já terem vivido,
que só as palavras atrasam o passo do tempo.
E as folhas não cortam se forem em branco.
Escreve para os que nascem depois de nascer, que as palavras trazem mais.
E as letras só crescem quando lidas.

Não escrevas aos mortos, que as palavras também morreram.
E só são palpáveis em vida.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cru

Somos todos poesia. 
E a melhor paisagem para se escrever são as pessoas. 
Escritas direitas por linhas direitas. 
Máquina e osso. E sangue para fazer andar. 
Movidas pelo ar que suspiram.


É na euforia citadina que a carne se torna verso.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Efémero Eu

Invejo, com certeza, os que passam alheios
ao passar do tempo e à efemeridade de tudo.
Invejo aqueles que seguem o caminho somente do presente,
sem terem passado pelo passado, e sem rumarem ao futuro.
Porque lhes dói os pés se passarem.
Assim, com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
tudo passa e acabamos a beber a vida fria.

Invejo os que nem sabem do tempo,
nem o de ontem nem o de para sempre.
Os que fogem à aflição causada pela metafísica.
O meu erro é querer a essência de tudo, menos de mim.
Tomara que fosse tudo concreto.
Nascer. Ir andando. Morrer.

Nasce. Morre.
E, enquanto se vai andando, vai nascendo e morrendo
e procurando. E o pior é sentir.
Com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
sinto tudo tão rápido e efémero. Efémero também eu.
Tomara que fizesse frio toda a vida, e que nevasse somente por nevar.
Para lá do ciclo de formação das nuvens.

Nasce e vai ardendo, qual fósforo curto.
Queria eu saber a metafísica do fogo.
Porque nem sei se é táctil quando não lhe toco.
Tenho em mim a certeza de que o fogo seria agradável ao toque,
se arrefecesse com a mesma velocidade que o chá no Inverno.

Pudesse eu ser alheio ao fogo, e ao andamento ritmado do universo.