sábado, 3 de janeiro de 2015

Efémero Eu

Invejo, com certeza, os que passam alheios
ao passar do tempo e à efemeridade de tudo.
Invejo aqueles que seguem o caminho somente do presente,
sem terem passado pelo passado, e sem rumarem ao futuro.
Porque lhes dói os pés se passarem.
Assim, com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
tudo passa e acabamos a beber a vida fria.

Invejo os que nem sabem do tempo,
nem o de ontem nem o de para sempre.
Os que fogem à aflição causada pela metafísica.
O meu erro é querer a essência de tudo, menos de mim.
Tomara que fosse tudo concreto.
Nascer. Ir andando. Morrer.

Nasce. Morre.
E, enquanto se vai andando, vai nascendo e morrendo
e procurando. E o pior é sentir.
Com a mesma velocidade com que o chá arrefece no Inverno,
sinto tudo tão rápido e efémero. Efémero também eu.
Tomara que fizesse frio toda a vida, e que nevasse somente por nevar.
Para lá do ciclo de formação das nuvens.

Nasce e vai ardendo, qual fósforo curto.
Queria eu saber a metafísica do fogo.
Porque nem sei se é táctil quando não lhe toco.
Tenho em mim a certeza de que o fogo seria agradável ao toque,
se arrefecesse com a mesma velocidade que o chá no Inverno.

Pudesse eu ser alheio ao fogo, e ao andamento ritmado do universo.

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