sábado, 30 de agosto de 2014

Fim

Chegou-se sorrateiramente para mais longe.
Cada vez mais próximo de quem não estava
e mais perto da solidão.
Acompanhado apenas de quem estava mais farto:
si mesmo.
Quis tirar uns dias – eternos – para viajar.
Turismo rural ou citadino ao jardim
onde as plantas são pedra regadas a lágrimas quentes.

Sorrateiro embebedou-se.
Fugiu para onde tinha a certeza que ficaria antes de ir.
Deambulou pelas ruas estreitas
onde a única iluminação que restava era um candeeiro sujo.
A luz reflectia-se na garrafa vazia de vinho barato
que lhe pendia da mão trémula.
Que olhos opacos que tinha.
Aquele olhar já não era janela para alma alguma.

Sorrateiro parou.
Tirou a gravata desapertada
que ainda lhe sufocava a goela, reprimindo o grito.

Sorrateiro gritou.
O grito arranhou-o e sorrateiro chorou.
Percorreu o que faltava da cidade.
E por dentro o que lhe faltava da vida.
Nada. Penumbra vazia era o que via.
Viver já não lhe era sinónimo de nada.

Que sorrateira morte.

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